Por Por Vilmar Sidnei Demamam Berna* / Terça-feira, 11 de Julho de 2006 às 22:53
"Dai-nos forças, Senhor, para aceitar com serenidade tudo o que não possa ser mudado. Dai-nos coragem para mudar o que pode e deve ser mudado. E dai-nos sabedoria para distinguir uma coisa da outra." - Almirante Hart
O assassinato de um ambientalista, como o Júlio Dionísio, por um caçador na Reserva Biológica do Tinguá, ou do Chico Mendes, a mando de fazendeiros, na Amazônia, só para citar estes dois entre tantos casos no Brasil, revela apenas a ponta do iceberg. Antes de serem efetivamente assassinados, estas pessoas receberam ameaças, avisos de amigos, perceberam sinais de perigo. Precisamos refletir sobre o que aconteceu com eles para que outros ambientalistas e jornalistas ameaçados não acabem tendo o mesmo fim.
Ao longo de minha vida como jornalista e ambientalista, já sofri diversas ameaças, pois em algum momento, consciente ou inconscientemente, desagradei e mesmo prejudiquei pessoas e organizações que teimavam - e ainda teimam - em usar o planeta como um armazém de recursos infinitos, por um lado ou uma lixeira infinita por outra. Ao fazer críticas, nos expomos. Neste aspecto, Elbert Hubbard alerta que "para evitar críticas, não faça nada, não diga nada, não seja nada !" Com Lepper, aprendi que a nossa vida tem um propósito e um sentido. Que não estamos aqui apenas para preencher um espaço ou para ser um figurante no filme de outra pessoa. “Pense nisto: o mundo seria diferente se você não existisse. Cada lugar onde você esteve e cada pessoa com quem você já falou seriam diferentes sem você. Estamos todos interligados e somos todos afetados pelas decisões e mesmo pela existência daqueles que vivem no mundo conosco.”
Entretanto, precisamos ter consciência dos riscos de nossas escolhas em defender o Planeta. Ao nos colocar na contramão de um modelo predatório de desenvolvimento, automaticamente nos confrontamos com a ambição e a cobiça de pessoas e organizações que se sentirão prejudicas em suas intenções de se apropriar dos recursos naturais ou de usar o meio ambiente como uma lixeira para seus restos. Isso significa que algumas dessas pessoas que ‘prejudicamos’ podem estar querendo se vingar. Ao escolhermos ser o que somos e agir como agimos, sabemos que iremos colher ônus e bônus por estas escolhas. William Shakespeare dizia que “um dia a gente aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, e nós somos responsáveis por nós mesmos.”
Ao receber uma ameaça, qualquer uma, não trate com indiferença, como se fosse algo banal, fofoca, intriga de vizinhos, etc. Vá até a delegacia de polícia de sua região e registre a ocorrência e peça segurança para sua vida e de seus familiares. Mas não espere que as autoridades efetivamente dêem proteção. A falta de estrutura e de pessoal é enorme e o risco de não poderem atender adequadamente é grande, permitindo que os ameaçados se transformem em alvos fáceis.Muitas vezes ao defendermos o meio ambiente ameaçado entramos sem querer, ou sem saber, em linha de confronto com o criminosos, organizados ou não. Uma das técnicas que eles usam a fim de dar segurança às suas atividades é promover a ocupação de áreas ‘vazias’ em volta da comunidade onde tem suas bases a fim de fazer um cinturão de segurança, colocando para morar nessas novas casas pessoas de confiança que comunicarão qualquer movimento estranhos nas redondezas. Só que não existem ‘áreas vazias’, mas estão ocupadas com florestas, manguezais, etc. Ao denunciar possíveis crimes ambientais nas redondezas, os ambientalistas podem se tornar alvo fácil, pois atraem – e exigem - a atuação das autoridades, e aí, sem querer ou sem saber, viram alvo do crime organizado. Se o recado partir de algum traficante ou grupo ligado ao crime organizado, não tenha dúvida, no mesmo dia reúna a família, arrume as malas e se mude para a casa de um parente ou hotel e não deixe que saibam sua direção. Depois, de longe, cuide para fazer a mudança para uma nova residência e entregue na mão de um corretor do lugar a venda da propriedade, se for própria. Pois é possível reconstruir tudo de novo em outro lugar, mas vida só se tem uma, e é breve e frágil. Guerdjef nos adverte para “esqueçer, de uma vez por todas, que você é imprescindível. No trabalho, em casa, no grupo habitual. Por mais que isso lhe desagrade, tudo anda sem a sua atuação, a não ser você mesmo.”
Mas as ameaças podem não ter grande importância e ser uma brincadeira de mau gosto de algum vizinho contrariado ou mesmo um ato motivado por inveja. O invejoso não é aquele que quer ter o que você tem ou ser o que você é, pois geralmente não tem essa condição, mas é aquela pessoa que não quer que você tenha o que tem ou seja o que é. Também existe uma diferença entre tensão e controvérsia. A tensão não mostra a cara, é uma situação que pode persistir por anos, onde um vizinho ou grupo de vizinhos não gosta de outro vizinho ou de outro grupo de vizinhos. As pessoas têm o direito de não gostarem uma das outras, mas têm o dever de respeitarem-se. Martin Luher King, que morreu assassinado, já alertava que "aprendemos a voar como pássaros, e a nadar como peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos." E Einstein, dizia que só conhecia duas coisas infinitas. O universo e a estupidez humana. E mesmo assim, declarava ter dúvidas se o universo era infinito.
Já uma controvérsia é clara, alguém quer uma coisa e você quer outra diferente, existe um conflito explícito, o que pode ser um caminho para uma negociação e um acordo. Como somos seres sociais e vivemos em comunidades, é natural que existam tensões e controvérsias e isso dará origem a diferentes políticas de vizinhanças onde cabe espaço para abaixo-assinados, debates, assembléias, etc., tudo natural num regime democrático e cabe a cada um, na medida de suas capacidades e escolhas saber o que é melhor para si. Charles Chaplin nos ensina que “não devemos ter medo dos confrontos. Até os planetas se chocam e do caos nascem as estrelas". O que não se pode admitir é o uso de ameaças de morte e de agressões como estratégia política, por que aí deixa de ser um caso de política, e vira caso de polícia.
Ao ser ameaçado, procure dar transparência ao que está acontecendo, pois aumentam as chances dos seus ameaçadores terem medo de serem descobertos. Procure a imprensa e não deixe também de pedir ajuda aos amigos, primeiro por que não estando no foco das ameaças, podem ver com mais tranqüilidade detalhes que você pode não estar percebendo, segundo, por que ajudam a dar transparência ao que está acontecendo e, sobretudo, nossos amigos e amigas constituem uma rede de proteção espiritual e psicológica da qual fazemos parte, e tão importante quanto se sentir protegido fisicamente é sentir-se amparado por esta rede de afetos. E amigos não são apenas os que conhecemos em nossa vida, mas também todos aqueles que já morreram ou que não conhecemos pessoalmente, mas com os quais mantemos afinidades espirituais, como todos estes que citei neste breve artigo, e que nos amparam com uma palavra, uma idéia, num momento de crise. Ralph Waldo Emerson diz que "a glória da amizade não é a mão estendida, nem o sorriso carinhoso, nem mesmo a delícia da companhia. É a inspiração espiritual que vem quando você descobre que alguém acredita e confia em você".
Por isso, encerro este artigo com a palavra da ‘amiga’ Clarice Lispector: “Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que se quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas. O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido. Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado. A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade. A vida não é de se brincar porque um belo dia se morre.”
* Vilmar é escritor, ambientalista e jornalista, editor do Jornal, da Revista e do Portal do Meio Ambiente (www.jornaldomeioambiente.com.br ) e fundador da REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental. Em 99, recebeu o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente, em 2003, o Prêmio Verde das América. Vilmar está ameaçado de morte desde maio de 2006 e apesar de já ter buscado a ajuda das autoridades, continua um alvo fácil para seus ameaçadores.
17:03
02/01 - Praias de Salvador estão próprias para o banho no feriadão
22/12 - Laudo sobre água do Joanes e da praia de Buraquinho sai em cinco dias
04/12 - Seminário reúne gestores de unidades de conservação
03/12 - Secretários do Nordeste querem acelerar programas no semi-árido
01/12 - Fórum aproxima a Bahia dos países africanos de língua portuguesa
28/11 - Região Sudoeste da Bahia discute Reflorestamento