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Politica Socioambiental

Politica SocioambientalPor Agência Adital - Fábio Deboni * / Sexta-feira, 07 de Julho de 2006 às 01:41

 

Adital - Ponto de PartidaEm pleno período eleitoral, a pauta "política" emerge com mais força no nosso dia a dia, seja na mídia, em rodas de conversas, na internet, na escola, na universidade ou mesmo em nossa casa. De fato, o tema tem sido foco de muito "barulho" ao longo de 2005 e 2006, por conta de escândalos como o do mensalão, das CPIs, dos sanguessugas, e de tantos outros acontecimentos que marcaram o cenário político brasileiro na atualidade.

Todos eles reproduzem práticas já há muito tempo conhecidas no Brasil - corrupção, desvios de recursos públicos, nepotismo, superfaturamento, etc - não sendo, portanto, marcas deste ou daquele governo, deste ou daquele projeto político para o país. Entretanto, não podemos correr o risco de generalizar as coisas: políticos, projetos, governos, políticas. Não podemos simplesmente repetir que "são todos iguais", porque sabemos que nem todos os políticos são corruptos, e que, como em todas as profissões, há muita gente séria atuando nestes espaços e implementando propostas importantes para o país.

Ampliando nossa lente é possível perceber que este cenário de degradação política se insere num contexto mais amplo de crise civilizatória, ou seja, do modelo de desenvolvimento vigente na atualidade. Este, por sua vez, dita o grau de impactos sobre as áreas social, ambiental, ética, política, cultural, econômica, dentre outras. Já há algum consenso entre ambientalistas (1) de que nos encontramos numa crise civilizatória sem precedentes, decorrente de um modelo de "desenvolvimento" predatório social, ética, ambiental e politicamente.

Posto este "pano de fundo", explicito o que pretendo com este texto: abordar a dimensão política na sua inferface (e interferência) na área socioambiental e como a juventude tem se inserido neste processo.

Desta forma então, é preciso iniciar demarcando o que se entende por "política", percebendo que o termo:

- não se resume apenas a organizações partidárias (partidos políticos);

- aponta para as diversas políticas públicas em andamento, dos mais variados órgãos que compõem a grande política de desenvolvimento (econômico, social, ambiental, cultural, agropecuário, etc) do país;

- necessita ser compreendido no âmbito do federalismo, recordando a autonomia dos estados e do distrito federal, e dos municípios na implementação dessas políticas;

- pressupõe o envolvimento dos diversos grupos e classes sociais da sociedade brasileira (cada qual com suas pautas, demandas e interesses próprios);

- dialoga com a conjuntura global de desenvolvimento (leia-se econômico), a partir das orientações de organismos transnacionais, multilaterais, e dos blocos de países.

Todos esses elementos ajudam a configurar o cenário político de um país, em menor ou maior grau. Na área socioambiental esses fatores são determinantes, mas não reinam sozinhos:

Campo Socioambiental, chamado por muitos como "Meio Ambiente", configura-se num espaço de conflitos e contradições. Há grupos sociais com diferentes interesses nesta área, que vão desde setores preocupados com o grande marcado "verde" em expansão (2), até militantes que dão sua vida pela causa, como o próprio Chico Mendes. Muitas são as contradições presentes neste campo, como por exemplo algumas tribos indígenas da Amazônia que se tornaram grandes fornecedores de madeira para atravessadores.

Múltiplas visões e divergências: trata-se de um campo observado sobre diferentes lentes. A maioria dos brasileiros (cidadão comum) ainda considera que o ser humano não faz parte do meio ambiente, e, portanto, para estas pessoas a percepção do que é Meio Ambiente é muito diferente da que Chico Mendes tinha, por exemplo. Se a percepção sobre o tema é diferenciada, certamente os projetos, programas e políticas decorrentes daí são também distintos entre si.

Campo em construção e em afirmação: trata-se de uma área emergente, recente se comparada a diversas outras e que, portanto, necessita se consolidar. Há diversos conceitos, idéias e metodologias em construção, e diversos outros que nem sequer foram identificados até o momento. Por exemplo: quais os impactos e decorrências para o meio ambiente da adoção dos transgênicos? Só pra ficarmos nessa questão...

Como sabemos, o campo socioambiental tem diversas portas de entrada. Cada pessoa se insere nessa área por diferentes caminhos. Temos percebido também que a área de Educação Ambiental (EA) tem se constituído talvez na principal porta de entrada para este campo.

Sabemos que quando falamos de EA, diversas são as vias de acesso (3) que têm aproximado pessoas interessadas no tema; muitas são as idéias, abordagens, visões e práticas que vem à nossa cabeça e na das demais pessoas. Mas estamos falando, praticando e testemunhando uma EA que:

- parte de uma perspectiva radical e que objetiva transformações ambientais e sociais. Ela não quer somente contribuir para tornar o Meio Ambiente melhor do que está atualmente (mais limpo, menos degradado, etc); quer também colaborar para transformações sociais profundas. Não adianta recuperarmos uma área degradada, por exemplo, se não incluirmos nesse processo as pessoas que nela vivem.  E quando falamos de transformações sociais, estamos falando também de questões culturais, éticas, étnicas e políticas.

- não é neutra, ingênua e inocente. Não se trata apenas de falar ou informar sobre meio ambiente e conservação ambiental, mas sim identificar que todas essas ações trazem consigo objetivos e interesses (claros ou ocultos), frutos de visões de mundo, de país, de sociedade, de desenvolvimento, etc, e pautadas por posições políticas (partidárias ou não partidárias). Não é mais possível acreditar que, qualquer que seja a ação de EA que realizamos, ela seja neutra, sem interesses e objetivos de transformar alguma coisa (seja de forma mais pontual ou mais ampla; mais pragmática ou utópica).

- não se restringe a ações pontuais e parciais, mas só é possível de ser efetivada ao longo de um processo contínuo. Nada contra as tão conhecidas "Semanas do Meio Ambiente", "Dia da árvore" e tantas outras datas comemorativas, desde que elas estejam conectadas num processo mais amplo que leve à continuidade e permanência destas ações. Senão, falamos de meio ambiente numa semana, e nas demais semanas do ano, o que acontece com ele?

- questiona visões românticas sobre Meio Ambiente e frases prontas como por exemplo: salvem as baleias; a natureza é bela, preserve o meio ambiente, etc.  Se estamos exercendo uma EA crítica e radical, não podemos enxergar o mundo com "óculos cor-de-rosa", ou seja, de forma ingênua e romântica. O mundo onde vivemos é complexo e é reflexo de uma configuração de forças sociais, econômicas, políticas, etc., portanto o meio ambiente não está separado de tudo isso.

Há ainda mais alguns elementos importantes para nós jovens nos situarmos neste tripé - questão socioambiental; política & juventude - especialmente questões que com muita freqüência escutamos de educadores ambientais no país. Trata-se de conceitos que são reproduzidos muitas vezes sem a devida reflexão crítica quanto ao seu real significado. Vamos observar estas questões e refletir sobre elas:

O jargão "pensar global e agir local" já não dá conta de responder ao momento atual, no qual tudo o que pensamos e fazemos se relaciona com o local e o global ao mesmo tempo. Por isso, diversas pessoas têm recolocado a frase da seguinte forma: "Pensar e agir local e globalmente", entendendo que é preciso sim pensar no global e no local e agir nas esferas locais e globais, numa perspectiva geopolítica de mundo. Enquanto estamos apenas atuando no local, que organizações estão atuando na esfera global? Certamente há muitas grandes organizações atuando neste espaço. Emerge dessa nova visão o termo glocal justamente demarcando a fusão entre o local e o global.

Visões como o "cada um deve fazer a sua parte" precisam ser debatidas, porque refletem uma visão apenas individual da EA, deixando de lado sua perspectiva política e cidadã. Se cada um fizer apenas a sua parte, teremos condições efetivas de transformar a realidade atual do mundo? Quando falamos de cada um com a sua parte, deixamos de lado um importante princípio, o da responsabilidade compartilhada, porém diferenciada. Ou seja, as responsabilidades não são iguais para todos os cidadãos e organizações do mundo. Quem causa mais impacto deve se responsabilizar em maior grau do que quem impacta menos.

Ao longo do caminho

Como vimos até agora, se há um fator determinante na área socioambiental é a questão política. Ela dita os rumos da área no país, nos estados e nos municípios, o que nos afeta diretamente em nossas ruas, bairros, quadras, segmentos, etc. Estamos falando de decisões do tipo: canetadas em gabinetes; políticas públicas, programas e ações; campanhas; planos de governo, PPAs; estratégias e desenvolvimento; política econômica; política externa, etc.

Tudo isso contribui para ditar os rumos de ações e impactos na área socioambiental, em termos de destinação de recursos ($), de alocação e qualificação de pessoas, de incentivo a pesquisa, de abertura de novos espaços e mercados, de definição e construção de obras e grandes empreendimentos, de definição de matriz energética, etc. As possibilidades são inúmeras, e cada uma delas abre para diversos outros desdobramentos. A respeito de tudo isso, pergunto: e a Juventude nesse processo? Como percebe isso? Como se posiciona frente a isso? Identifica formas de participação política?

É possível rascunhar alguns passos passíveis de serem seguidos visando a participação da juventude na área socioambiental. Cabe lembrar que esses passos refletem uma visão de mundo e, portanto, não são se apresentam como sendo único caminho ou única possibilidade.

Reflexão individual e coletiva do que se entende por participação política e avaliação do andamento de ações nesta área.

Identificação das correntes, tendências, projetos de país e de desenvolvimento, a partir de análises conjunturais periódicas. Questões relacionadas:

- Com quais propostas me identifico mais? (O "me" aqui significa a pessoa e o grupo ao qual ela participa)

- Que segmentos, pessoas e organizações vêm atuando nestas frentes?

- O que é possível inovar a partir destas propostas? Há espaço para isso?Ação Política propriamente dita

a) Mapeamento dos espaços e instâncias de participação política, a partir de um recorte territorial

Colegiados, coletivos, redes, fóruns, organizações, instituições e grupos: exemplos: Conselhos Municipais de Defesa do Meio Ambiente (COMDEMAs), Conselhos Estaduais de Meio Ambiente, Comitês de Bacias, Redes, Conselhos Estaduais e Municipais de Juventude, Fóruns, Com-Vidas, Coletivos Jovens, Coletivos Educadoresb) Definição de Estratégias de Ação

Inserção nos espaços já existentes

Propostas e pautas para serem levadas a estes espaços

Método de ação: lembrando que há diferentes perspectivas de paticipação, que podem passar pela via da pressão, por momentos de consulta, por oportunidades de tomada de decisão (deliberação), etc.

Mais do que respostas, muitas perguntas....

Frente a tudo o que foi levantado neste texto, cabe-me mais do que buscar encontrar respostas e afirmações, retomar perguntas que contribuam para a reflexão de pessoas e grupos a respeito do tema: Juventude, Participação Política e Meio Ambiente.

Como a juventude tem se posicionado frente a temas emergentes e polêmicos da área: transposição do rio São Francisco, transgênicos, criação do Serviço Florestal Brasileiro, BR-163, desertificação, etc ? Há acúmulo nos debates sobre esses (e outros) temas importantes? Quais são as tendências e ponderações sobre eles?

Mais do que se posicionar "a favor" ou "contra" deste ou daquele tema, quais são as propostas que a juventude tem para cada um deles? Essas propostas têm embasamento técnico e conceitual ou são fruto de posicionamentos superficiais e tendenciosos veiculados pela mídia?

Como a juventude pode ampliar esse debate sobre a questão socioambiental no país, agregando outros jovens e trazendo novas propostas e idéias? Há espaço para a inserção destes jovens na atualidade no Brasil? Quais?

Saber colocar as perguntas pode ser, muitas vezes, mais interessante do que buscar respostas parciais para tentar explicar a complexa realidade socioambiental brasileira. Cada nova pergunta traz consigo pontos de vista e novas possibilidades de se pensar o mundo, mesmo que na maioria das vezes nos restem muito mais perguntas do que respostas efetivas. Afinal, vivemos num mundo com oceanos de incertezas e arquipélagos de certezas (4)

Notas:

(1) Guardando as diferentes correntes e visões presentes na área.

(2) Sugiro leitura de textos e livros de Carlos Walter-Porto Gonçalves, que aborda de maneira muito interessante e crítica essa questão, com foco na geopolítica mundial atual. Uma busca rápida no google (Carlos+Walter+Porto+Goncalves) permitirá encontrar muita coisa interessante deste autor.

(3) Uma referência interessante sobre esse assunto: SORRENTINO, Marcos. Portas, Chaves e Restaurantes. In: Anais do I Simpósio Sul Brasileiro de Educação Ambiental , II Simpósio Gaúcho de Educação Ambiental, XIV Semana Alto Uruguai do Meio Ambiente. ZAKARZEVSKI, Sonia et alli (orgs.). Erechim, RS. EdiFAPES. p. 91-100. 2002.

(4) Expressão usada por Edgar Morin, no livro "Os sete saberes necessários à educação do futuro", dentre outras publicações. Aliás, recomendo uma visita no site: http://edgarmorin.sescsp.org.br/

que conta um pouco da história deste importante pensador contemporâneo, que muito tem contribuído  para influenciar a EA brasileira.

* Educador Ambiental. Órgão Gestor da Política Nacional de Educação Ambiental

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